O Afastar das Nuvens
- Sandra Duarte

- 29 de set. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 10 de nov. de 2025

Um dos nossos maiores desafios na vida envolve o entender a desilusão. Porque nos desiludimos? O que aprendemos com isto? Como passar por esse processo sem tanto sofrimento?
À medida que crescemos, vamos arquivando nas nossas memórias, interpretações que fazemos da realidade, dos acontecimentos na nossa vida, vamos criando e absorvendo crenças, ideias do mundo à nossa volta. Trata-se de um arquivo de segurança, para não voltar a repetir o mesmo caminho quando a experiência não foi agradável, e para repetir as experiências que nos fizeram sentir bem. Em muitos destes arquivos, guardamos conceitos, noções, crenças da realidade que adquirimos com as nossas vivências e com o que absorvemos dos outros à nossa volta. Só que, por vezes, alguns desses conceitos, crenças, colidem com a nossa verdadeira natureza, nos limitam. Impedem-nos de vibrar na nossa energia mais pura. São como nuvens que absorvemos e que nos cobrem, escondendo o nosso verdadeiro Eu. Criam ilusões e impedem-nos de ver com clareza os outros e as situações.
Imaginemos que adquirimos uma crença de que um bom amigo é aquele que está sempre presente na nossa vida, qualquer que seja a situação. Quando isto não acontece, colocamos esta amizade em risco. Duvidamos dela. Dá-se o processo da desilusão. A pessoa não corresponde ao que esperávamos dela. À nossa expectativa dela, à visão que tinhamos dela.
Porque atraimos desilusões?
Elas só acontecem quando algo em nós, uma crença, um conceito está elevado demais, quando existe uma expectativa demasiado elevada de algo ou alguém, quando estamos iludidos com algo ou alguém. Quando não os vemos com clareza, tal como eles realmente são. Nós atraimos as desilusões através de pessoas, situações, que nos vêm ajudar a dissolver o que está iludido em nós. É um processo doloroso mas que a um nível mais elevado, tem um objectivo positivo. O de nos fazer abrir os olhos, afastar as nuvens, as ideias enganosas que absorvemos com as nossas vivências.
Será que no caso acima, um amigo que não esteja sempre presente deixa de ser amigo? Certamente que não. Cada um de nós tem as suas vidas, os seus compromissos. Pode acontecer algo inesperado na vida deste amigo que o impossibilita de estar presente a certa altura, algum tipo de impedimento. Mas isto não o torna menos amigo.
É nestas alturas que precisamos redefinir os nossos conceitos, crenças, valores, de forma a dar liberdade aos outros e a nós próprios. A verdade é que algum impedimento também pode acontecer da nossa parte e nós não podermos estar presentes a certa altura.
Quando esperamos demasiado dos outros, também exigimos demasiado de nós próprios, inclusive, nos colocamos sob pressão para atingirmos esse ideal que criámos. Quando as nossas expectativas diminuem em relação ao outro, também deixamos de exigir tanto de nós próprios, dando-nos a ambos mais liberdade.
Por vezes, pode acontecer nós termos uma visão de uma pessoa, a qual não corresponde ao que ela é realmente. É como se a vissemos por entre nuvens. E estas nuvens são ideias, crenças que temos em relação a certas pessoas, de acordo com a sua aparência, personalidade, raça, etc. Isto é projectar no outro uma ideia pré-concebida que temos dele. E só com o tempo, com a convivência é que vamos conhecendo essa pessoa, e as nuvens vão-se afastando, descobrindo a nossa visão, deixando-nos ver quem a pessoa realmente é. Percebemos que algo não se encaixa na nossa visão inicial.
De alguma forma, a pessoa surge na nossa vida para desprogramar a nossa forma de pensar,
as ideias que temos pré-concebidas, as crenças que temos em relação a um certo tipo de pessoas. Sempre que houver ideias pré-concebidas, preconceitos, crenças desalinhadas com o coração, nós atraimos pessoas, situações, para nos desprogramar em relação a isso. Trata-se assim de um processo de desprogramação. É o afastar das nuvens que nos tapavam a vista, nos cegavam. E este descobrir das nuvens pode acontecer de duas formas: pela negativa, pela desilusão, pois à primeira vista a pessoa ou situação era de encantamento, e com o afastar das nuvens dá-se o desencantamento; e pela positiva, pela admiração, à primeira vista a pessoa ou situação era de falta de interesse, e com o afastar das nuvens dá-se a surpresa. Em ambos os casos é um acordar.
Nas relações de vários tipos, familiares, amorosas, de amizade, etc, temos tendência para projectar no outro uma ideia pré-concebida, um ideal. Isto significa que dentro de nós temos um ideal do outro, de acordo com o seu papel, se é pai, mãe, amante, amigo, filho, professor, etc. Se é pai, deve proceder assim, se for amante, deve proceder assado. E assim por diante. E quando a pessoa não corresponde ao nosso ideal, nós ficamos confusos, desiludidos. Algo não se encaixa. Inclusive, não conseguimos ver o amor na forma como essa pessoa nos dá. É preciso ver o outro tal como ele é, para além do seu papel. Um ser que pode ser complexo, com medos e inseguranças, que nem sempre age de acordo com o papel que esperamos, que idealizamos. E isto não quer dizer que o amor não esteja presente. Simplesmente nos é dado de forma diferente do esperado.
O afastar das nuvens que tapam a nossa visão é um caminho que nos faz voltar a nós próprios, à nossa verdadeira essência, que nos dá mais liberdade, alinha-nos com o coração. É um processo que, quando não é compreendido, pode-se passar por muito sofrimento.
O segredo para se ultrapassar isto é compreender o processo, perceber a ilusão que se tem e dissolvê-la. Só quando assumimos a responsabilidade sobre as nossas desilusões, e agradecemos interiormente ao outro por nos desiludir, nos desprogramar uma ilusão, ideia pré-concebida ou enganosa, crença, valor, que temos, poderemos assumir o nosso poder pessoal e voltar a nós próprios. Ao nosso verdadeiro Eu. Pois ao permitirmos que o outro seja ele próprio, sem colocarmos sobre ele as nossa expectativas ou idealizações, estamos também a permitirmo-nos a nós próprios sermos o nosso Eu verdadeiro, sem carregarmos com as expectativas e idealizações dos outros em relação a nós.




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