Eu Ouço-Me
- Sandra Duarte

- 10 de nov. de 2025
- 5 min de leitura

O mundo em que vivemos é composto por pensamentos nossos e dos outros, emoções nossas e dos outros, crenças, conceitos, etc. Imaginemos que cada um desses pensamentos, emoções, crenças, são formas abstractas de cores variadas que existem à nossa volta, formando uma grande nuvem de cores. Quando escolhemos pensar, sentir de determinada forma, acreditar em algo, é como se agarrássemos uma dessas formas e as colassemos a nós, porque nos identificamos com ela, como se se tratasse de uma peça de roupa que nos agrada e que escolhemos vestir. Todos nós conseguimos perceber, sem ter consciência, todas essas formas à nossa volta e nos outros, os pensamentos, emoções, crenças, etc, alheios. Só que o que acontece é que os confundimos como se fossem nossos, porque não percebemos o que é nosso e o que é do outro. Como não temos consciência desta dimensão paralela, não conseguimos discriminar quem pensa o quê, quem sente o quê. Simplesmente surgem-nos esses pensamentos, emoções e identificamo-los como nossos.
Em locais onde se reune muita gente, como por exemplo, as cidades, sentimos que o ambiente está mais carregado dessas formas, tornando o dia-a-dia mais confuso, e somos mais influenciáveis por todas essas formas abstractas, pensamentos, emoções. Só quando recorremos a locais na natureza, mais desertos, é que encontramos um maior silêncio, que nos ajuda a perceber o que é realmente nosso.
Uma outra forma de alcançar esse estado de silêncio é através da meditação. O objectivo de meditar é silenciar o ruído externo, todos esses pensamentos, emoções, que vêm do exterior, e voltarmo-nos para dentro, para o nosso Eu interno e o ouvirmos. Entrarmos em contacto com o que é realmente nosso.
Uma parte de nós vive focada no mundo exterior. Desenvolveu esta forma de estar porque apenas aprendeu a ir buscar amor, energia, fora de si, nos outros. Habituou-se a preencher as necessidades dos outros em troca de atenção e de amor, em detrimento das suas próprias necessidades. Só que isso torna-nos completamente dependentes dos outros e do pouco que nos podem dar para nos sentirmos bem connosco. Nem sempre os outros têm a capacidade de nos agradecer isso, de nos dar em troca o que esperamos deles. O voltarmo-nos para dentro, para nós, para ouvirmos as nossas necessidades é uma grande mudança de foco na nossa vida. Só assim podemos estar em contacto com as nossas emoções, sentimentos, de forma a preenchê-los, a satisfazê-los. Enquanto esta mudança de foco não acontece na nossa vida, vivemos em favor dos outros, esquecendo-nos de nós próprios, vivendo insatisfeitos. E para preenchermos esse vazio, recorremos a todo o tipo de escapes, de vícios, tais como a comida, o álcool, o tabaco, a droga, etc.
Porque é tão importante ouvir as nossas
emoções e necessidades?
Porque só assim podemos encontrar estabilidade e equilíbrio emocional, tranquilidade interior. Só quando estas necessidades estiverem satisfeitas, poderemos estar calmos o suficiente, para sabermos o que queremos da nossa vida e fazer as escolhas certas. Enquanto não alcançarmos este estado, todas as escolhas são baseadas em pensamentos e crenças alheios, em visões de vida dos outros, que nem sempre nos servem, nem sempre nos fazem felizes, nem sempre estão alinhadas com o nosso próprio coração.
Quando temos desordens alimentares, isto é, não temos uma alimentação saudável, é porque estamos a comer para preencher um vazio. A origem desse vazio é uma necessidade que não está a ser satisfeita, que não a estamos a ouvir. E por isso recorremos a todo o tipo de alimentos para preencher esse vazio o mais rápido possível. Por isso surgem distúrbios alimentares. A solução não passa por apenas fazer dieta ou reeducar a alimentação, e sim, aprender a ouvirmo-nos, a ouvir e a dar atenção às nossas reais necessidades. Só assim, estas podem ser realmente satisfeitas.
Quando andamos dispersos e mentalmente agitados é porque não estamos a dar atenção às nossas necessidades internas, a ouvir as nossas emoções e sentimentos, e buscamos fora de nós algo para preencher o vazio que sentimos, o mais rápido possível. Fugimos do que sentimos. Quanto maior a fuga, maior a agitação. Mas como não nos ouvimos, não estamos a preencher esse vazio com o que realmente nos satisfaz. Estamos simplesmente a ignorar essas necessidades e não as satisfazemos como é devido. E por isso, elas mantêm-se sempre insatisfeitas, sempre pedindo mais, inquietas. A única forma de acalmá-las é dar-lhes o devido alimento. E para isso, é preciso ouvi-las.
As próprias doenças que desenvolvemos são sinais de alerta do nosso corpo para lhe darmos atenção, para o ouvirmos.
Quando não o ouvimos ao mais pequeno sinal, ele desencadeia doenças mais graves, para chamar a nossa atenção, até que tomemos a decisão de o ouvir, de ouvir as suas necessidades e de preenchê-las.
Quando não nos ouvimos, não damos atenção às nossas necessidades, emoções, sentimentos, e projectamos tudo isso no mundo à nossa volta – que é um reflexo do nosso mundo interno – e atraimos pessoas que não nos ouvem, não nos dão a atenção que queremos, ou atraimos situações em que não nos sentimos ouvidos, e por isso até podemos sentir necessidade de falar mais alto, de gritar até. No fundo, é uma reacção instintiva: “Eu grito para me ouvir a mim próprio, porque não me estou a ouvir o suficiente, não estou a ouvir as minhas necessidades, as minhas emoções, os meus sentimentos.”
Por termos nascido numa sociedade que não valoriza as emoções e sentimentos, e que deu sempre maior importância à razão, ao que é lógico, muitos de nós não sabemos lidar com as nossas emoções, necessidades, sentimentos. E por isso fugimos deles. Porque não os conseguimos controlar. É uma energia instável, que não conseguimos lidar com, porque crescemos habituados a medir tudo, a racionalizar tudo, a controlar tudo. E principalmente aprendemos a ir buscar a informação fora de nós, não dentro de nós. Não aprendemos a ouvir-nos.
É importante perceber que se as emoções, necessidades, sentimentos, existem é porque eles têm a sua função, o seu objectivo. Ignorá-los é ignorar uma parte de nós, que é tão importante para sermos felizes.
Isto acontece porque muitos de nós, por termos passado por emoções negativas, em que sofremos muito, recusamo-nos a sentir. Só que isso também não nos permite sentir alegria, felicidade, paixão, amor. É como fechar num baú a capacidade de sentir. Seria como não sentir nem tristezas nem alegrias. Seria como não ter uma bússola para a nossa realização pessoal. São as próprias emoções que nos permitem descobrir o caminho que nos faz feliz. Sem elas não alcançaríamos esse estado de felicidade, de alegria.
Aprender a ouvirmo-nos, a respeitar o nosso mundo interior, a alimentá-lo como ele precisa, a ouvir e a satisfazer as nossas necessidades,
a dar atenção às nossas emoções e sentimentos, é uma das maiores mudanças que podemos fazer na nossa vida. Só assim nos silenciamos internamente e encontramos tranquilidade e estabilidade emocional. Só assim podemos nos ouvir e perceber a direcção de vida que o nosso coração quer que sigamos. Só assim podemos abrir o nosso coração para sentir amor.




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