O Renascer do Masculino e do Feminino
- Sandra Duarte

- 17 de nov. de 2025
- 8 min de leitura
O que é ser Mulher ou ser Homem hoje em dia?

Cada vez mais, o ser Mulher e o ser Homem se torna confuso. Já não é possível definir comportamentos femininos ou masculinos. O mundo passa por uma grande transformação, muito necessária para o equilíbrio do próprio planeta. Mas o objectivo final é equilibrar a energia feminina e masculina em cada um de nós.
Todo o universo é composto por duas polaridades, as energias feminina e masculina, opostas e complementares, que interagem numa dança constante, de forma a criarem dinamismo e harmonia entre si. Elas são co-dependentes uma da outra. Uma precisa da outra para que possa crescer. Têm de cooperar uma com a outra para alcançar o equilíbrio. Podemos ver isso representado no símbolo do Yin-Yang: O feminino inclui dentro de si o masculino e o masculino inclui no seu interior o feminino. Um espelha o interior do outro.
A energia masculina, yang, é voltada para o exterior, focada em conquistas, na acção, em atingir metas e no planejamento. Representa o nosso lado racional, o pensamento lógico, a rapidez, a manifestação externa, o processo de materialização, a força, a coragem, a paixão, a competição, a determinação, o poder de selecção, pensamento focado, a assertividade, o pragmatismo, a confiança. Está associada ao dia, ao sol, ao céu, ao fogo, ao ar, ao pai, à autoridade, ao trabalho, à cidade, às linhas rectas e angulosas, ao mundo visível, com contornos definidos, à verdade, à visão clara das situações, ao discernimento, à expansão, à superficialidade.
A energia feminina, yin, é voltada para o interior, para os sentimentos e emoções, a intuição, o pensamento abstracto, a lentidão, a voz interna, o prazer, o relaxar e descansar, a paz interior, a beleza, o amor, a suavidade, gentileza, a segurança interna, a receptividade, a sensibilidade, o saber fluir, a compaixão, a inspiração, a aceitação, o perdoar, a força interior, a sensualidade, a vulnerabilidade, a expressão e comunicação das emoções, a conexão, a capacidade de acolher e cuidar, de alimentar o outro. Está associada à noite, à lua, à terra, à água, à mãe, à familia, à casa, à natureza, às linhas curvas e onduladas, ao mundo invisível e misterioso, com contornos indefinidos, ao que está escondido, à sabedoria vinda da alma, à subjectividade, à introversão, à profundidade.
Cada uma destas energias, masculina e feminina, existe em cada um de nós.
O que acontece é que existe um grande desequilíbrio na forma como as expressamos.
A nossa sociedade desenvolveu em excesso a energia masculina, focada na razão, no pensamento lógico, no atingir objectivos, etc.
Até ao século passado, existia uma grande diferença social, em que o homem tinha um lugar superior à mulher. Em que o homem era responsável pelo sustento da familia e a mulher geria a vida do lar, fazendo as tarefas domésticas e cuidando dos filhos. Grande parte da história foi contada segundo uma perspectiva masculina.
Com a evolução dos tempos, muitas mulheres, quando começaram a deixar a vida de casa para fazer parte do mundo do trabalho, onde dominavam os homens, viram-se obrigadas a desenvolver a sua energia masculina para serem respeitadas e vistas como iguais aos homens, com os mesmos direitos. Tornaram-se racionais, competitivas, mais corajosas que muitos homens, focadas na acção. E afastaram-se do seu lado feminino, do seu mundo interno, das suas emoções e sentimentos, do ouvir a sua intuição, da capacidade de fluir, do relaxar e descansar, etc.
O que está a acontecer agora, para haver equilíbrio entre as energias, é que muitos homens começaram a desenvolver mais o seu lado feminino, a contactar com as suas emoções, com a sua intuição e sensibilidade, a serem mais passivos, etc.
Neste momento, o mundo atravessa mais mudanças ainda e está a ser pedido que as mulheres e os homens equilibrem estas energias dentro de si. Ambas devem estar equilibradas para que os próprios relacionamentos entre os dois sexos possa ocorrer mais harmoniosamente.
O próprio planeta reflecte o desequilíbrio
destas duas energias.
O excesso de energia masculina é o que leva às guerras, à dominação de um povo por ditadores, ao stress, tensão e conflitos que vivem ambos os sexos, à falta de harmonia de uma forma geral. A nível individual, há falta de harmonia interior, dificuldade em fluir com as situações da vida, falta de segurança interna que leva ao medo e a comportamentos de domínio e controlo dos outros, das situações e da própria vida em geral. O stress e a agitação interna são resultantes do excesso de trabalho, preocupações, pressão para atingir objectivos, do estar-se sempre ocupado, uma maior exigência consigo próprios.
Para equilibrar isto, é necessário criar harmonia nas nossas vidas, desenvolvendo a energia feminina, arranjando tempo para descansar e relaxar, para se fazer actividades de lazer, aprender a ouvir o nosso mundo interno, emoções, sentimentos, a intuição. Reconectar com a natureza, apreciar o belo no mundo à nossa volta, transformar crenças internas de forma a ajudar-nos a abdicar da necessidade de controlar tudo e todos, e aprender a aceitar e fluir com a vida, aprender a ser-se mais espontâneo, brincar mais e aceitar ser-se surpreendido, estar receptivo ao inesperado, ao que não é planeado, perder o controlo, etc.
A energia feminina, quando em excesso, traz passividade, excesso de sensibilidade, falta de interesse, depressão, dependência dos outros, submissão, dificuldade em materializar ideias e projectos, excesso de imaginação e fantasia, confusão, dispersão, insegurança, dificuldade em agir ou tomar iniciativa, ficar à espera que os outros tomem a iniciativa e façam tudo, não saber dizer “Não” pois há dificuldade em estabelecer limites, excesso de introversão o que leva a uma dificuldade em criar ligações com os outros.
Para equilibrar esta energia, é necessário desenvolver um pensamento mais objectivo e lógico, planear objectivos, fazer actividades desportivas, desenvolver projectos, fazer actividades que nos levem a comunicar e a estabelecer ligações com os outros, desenvolvendo a vida social, tudo o que nos impulsiona à acção, ser-se mais assertivo, seguir a nossa vontade, confiar mais em nós próprios.
Quando ambas as energias se equilibram em nós, podemos ter relacionamentos mais equilibrados
e mais harmonizados.
Mas para isso, é ainda necessário mudar muitas mentalidades, crenças e valores que estão assentes em ideias erradas do que é ser-se mulher ou homem, hoje em dia. Há ideias erradas a este nível que precisam ser deixadas para trás, abandonadas, se quisermos desenvolver boas relações amorosas. Estes conceitos que nos foram passados criam em ambos os sexos pressões para atingir esses ideais tão desequilibrados. Tornam-nos submissos a esses papéis e incapazes de fluir na relação, de sermos espontâneos e criativos. No fundo, tiram-nos a nossa liberdade de sermos nós próprios.
É na relação a dois que é mais visível a dinâmica destas duas energias. Quando há muitos conflitos, lutas de poder é porque há um excesso de energia masculina, excesso de fogo na relação. Ambos competem um com o outro porque um quer dominar o outro e subjugá-lo. Aqui não existe Amor, existe necessidade de controlo e ter poder sobre o outro. Isto é devido a insegurança interior. É necessário desenvolver energia feminina por ambas as pessoas da relação, para que haja mais harmonia e cooperação. Só alcançando segurança interior, deixando fluir os sentimentos mais profundos, criando espaço interior para cada um se alimentar e entrar em contacto com as suas necessidades, desenvolver actividades de lazer, etc. Quando há passividade numa relação, esta torna-se estagnada, aborrecida. Ambas as pessoas dispersam-se, isolam-se uma da outra. Há falta de iniciativa, de fogo na relação. Há pouco crescimento aqui de ambas as pessoas. É quando esta precisa de paixão, objectivos comuns, um ideal maior partilhado, que una ambas e inspire a paixão.
Numa relação equilibrada, dinâmica e harmoniosa, ambas as pessoas devem ter também dinamismo e harmonia. Um não deve ter poder sobre o outro, pois onde há necessidade de poder não existe amor.
Para que haja amor numa relação é necessário
que haja sacrifício da necessidade de poder,
de controlo.
Esta necessidade existe devido à insegurança interior, de não se sentir suficiente, à altura das expectativas. Quando esta necessidade é renunciada há uma maior receptividade um ao outro, confiança, flui-se na relação, há cooperação para um propósito comum, ambos permitem-se a aprender um com o outro. É suposto ambos se complementarem, não um dominar a relação e ser responsável por tudo, fazer o trabalho todo. Pois quando isto acontece, está-se sozinho na relação, carrega-se um fardo, porque o outro é submisso, ausente, passivo. Não participa activamente na relação, não a ajuda a crescer. E aquele que domina não se permite também a crescer devido à sua necessidade de controlo. É necessário mudar a visão de relacionamento. Esta deve estar assente numa perspectiva de crescimento mútuo, de troca igual. E sempre que haja posições extremas, estas devem ser negociadas, de forma a encontrar um ponto de equilíbrio. Quando duas pessoas se atraiem é porque têm algo a aprender uma com a outra e esta aprendizagem só acontece quando ambos permitem que cada um traga à relação algo de diferente para que ambos cresçam um com o outro. Quando isto não é permitido a relação estagna e entra na rotina, na monotonia. E com o tempo morre.
A um nível global, acontece o mesmo quando um povo ou raça é dominado por outro povo ou raça. Isto cria desequilíbrios e impede que haja troca entre ambos, aprendizagem. Qualquer relação existe para crescimento de ambas as pessoas. Quando isto é permitido atinge-se um outro nível superior, de profundidade, de amor entre as duas pessoas. Tudo o que não permite o crescimento, estagna e morre. É suposto as duas pessoas combinarem as suas forças e fraquezas e se fortalecerem uma à outra ao honrarem-se uma à outra. É esta a grande mudança que está a ser pedida nos relacionamentos. Ninguém é superior a ninguém. Se eu aceitar a crença de que sou superior a outro por ter determinada característica ou qualidade, eu permito que uma terceira pessoa seja superior a mim. É assim que se criam hierarquias, classes, separação, muros. Se pensarmos que todos temos qualidades diferentes uns dos outros e que todos temos a mesma importância, seja de que raça ou sexo formos, haverá lugar para estarmos receptivos a todos e aprendermos uns com os outros. Quando nos colocamos num lugar superior, tornamo-nos arrogantes e não estamos abertos à aprendizagem. Mais tarde ou mais cedo, alguém se coloca acima de nós também, para que experienciemos o outro lado da moeda.
Equilíbrio é o objectivo comum a todos nós. Só assim nos tornaremos num homem ou mulher equilibrados, íntegros e completos. Só assim podemos co-habitar num mundo melhor, mais equilibrado, mais harmonioso. Ser homem ou mulher no mundo de hoje é aceitarmos quem somos, aceitarmos que temos sexos diferentes, corpos diferentes, qualidades diferentes. Que nenhum é melhor ou pior do que o outro,
pois ambos têm as suas forças, qualidades e
as suas fraquezas e imperfeições.
Um homem é forte e corajoso quando é capaz de aceitar as suas fraquezas e vulnerabilidades – masculino no exterior e feminino no interior. Uma mulher é calma e receptiva quando descobre a sua força e confiança interiores – feminino no exterior e masculino no interior. Ser homem e ser mulher não depende das máscaras e papéis sociais que usamos, não depende da aparência exterior. Todas estas máscaras precisam de cair e dar lugar a uma nova ideia de ser Homem ou Mulher. Só assim podemos dar espaço e liberdade para que cada um se expresse como se sente, respeitando as suas diferenças. Renascer como um Novo Homem e como uma Nova Mulher.




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