Construir Pontes em vez de Muros
- Sandra Duarte

- 6 de out. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 10 de nov. de 2025
Cada um de nós é um universo. Um mundo único, constituído por pensamentos, sentimentos, emoções, crenças, valores, imagens e sons que criamos e que guardamos. E nenhum universo é igual. Cada um funciona ao seu próprio ritmo, com a sua própria ordem. No entanto, ligamo-nos uns aos outros como se partilhássemos o mesmo palco. Cada um de nós aceita, compromete-se com o outro a ser a personagem da história do outro, quando ambos temos algo a aprender um com o outro. É como se a um nível inconsciente, houvesse encontros agendados. A tal hora, em tal lugar, aprender a lição tal.

Trocamos informações entre nós a um nível inconsciente e consciente. Ajudamo-nos mutuamente. Quando um aprende e cresce, o outro automaticamente o faz também. E quando as lições estiverem aprendidas, a energia entre os dois universos harmonizada, afastamo-nos, seguindo um novo rumo. É assim que pessoas entram e saem da nossa vida. Quando entram, elas trazem a semente do que precisamos evoluir em nós naquele preciso momento. E quando saem, a nossa perspectiva mudou, a nossa visão se ampliou, o nosso foco mudou de direcção, rumo a outro “encontro”.
Mas há aqueles que permanecem na nossa vida. É o caso da familia. Não só familia de sangue mas também família da alma. Aqueles com quem viemos ter relacionamentos mais próximos, mais íntimos. Com a família estabelecemos o compromisso de permanecermos nas vidas uns dos outros por mais tempo. O salto evolutivo é maior.
Mas nem sempre a experiência é fácil. Quando dois universos se juntam, no início pode haver alguma desarmonia. Essas são as pessoas que nos trazem a aprendizagem maior. Quando há desconforto, incómodo, emoções negativas. Quando um universo afecta o outro desencadeando emoções negativas. Pois esse outro universo reflecte o que em nós ainda não está em harmonia, em paz. É como se fosse uma campainha, nos dando alertas. “Olha para aqui! Olha para ali!”
Quando nos fechamos no nosso próprio universo, nos isolando excessivamente dos outros, criamos muros de protecção, que, aparentemente parecem nos dar segurança mas, na verdade, eles impedem-nos de estabelecer ligações com os outros. Impedem-nos de estarmos abertos à aprendizagem com o outro, de haver troca com o outro. Criam bloqueios em nós próprios. Isolam-nos no nosso próprio mundo. Não há renovação aqui, não há aprendizagem, possibilidade de crescimento, expansão e evolução. Há, sim, estagnação.
Mas quando se constroem pontes entre dois universos, cria-se a possibilidade de renovação, de crescimento.
Para que isto aconteça é preciso que os muros que parecem nos proteger, caiam. É necessário haver um desejo de ir mais além do nosso próprio mundo. Ir à descoberta, à conquista de novos mundos. Estar munido de um sentimento de curiosidade, de desejo de expansão. É assim que conhecemos novas pessoas na nossa vida. Quando há um desejo em nós de expansão do nosso ambiente, do nosso círculo social, de conhecer pessoas novas. É preciso estarmos receptivos a tal. Sair do ambiente que nos é familiar e conhecido, seguro, e rumar ao desconhecido, arriscar, aventurarmo-nos. Perceber que o desconhecido se torna conhecido quando nos abrimos a isso. Torna-se familiar.
A comunicação é uma das formas mais importantes para construir pontes entre pessoas. É através dela que conhecemos o outro e que este se torna familiar. Mas infelizmente, nem sempre sabemos comunicar de forma adequada com o outro. Aqui podem existir muitos conflitos. A maioria de nós comunica a um nível superficial. Trocando informação do dia-a-dia, conversas sobre o tempo, as notícias, a vida alheia, etc. Mas a verdadeira comunicação só acontece quando cada um de nós estiver preparado para comunicar a partir do coração. Quando é uma comunicação mais profunda, ao nível da alma. Nem todos estão receptivos a isso, pois é necessário que caiam os muros que usamos para nos proteger. Só quando percebermos que o outro é um ser como nós, com os mesmos medos e inseguranças, os mesmos muros, é que podemos permitir que essa comunicação se estabeleça. Quando isso acontece, cria-se um elo muito forte entre duas pessoas. Quando a comunicação é verdadeira, profunda, é possível crescer com o outro de forma mais consciente. Perceber o que o outro sente, como é a sua visão da vida. Cria-se uma ligação de grande confiança. Conectamo-nos verdadeiramente com o outro, ao nível da alma.
É desta forma que criamos laços fortes com os outros, boas amizades, boas parcerias. Quando permitimos que o outro nos conheça como realmente somos, sem muros. Quando abrimos a porta para o outro entrar no nosso universo.
Mas para estabelecer uma boa ligação com o outro é preciso que percebamos que o outro pode ter uma visão de vida diferente da nossa. É necessário que desenvolvamos a capacidade de aceitação dessa diferença e de nos colocarmos no seu lugar. Perceber o mundo visto pelos seus olhos, sentir o que ele sente. Compreender a partir de onde ele vem, quais as histórias de vida por que passou que poderão desencadear certas reacções que não compreendemos. Pois estas reacções nascem de inseguranças e medos devido a experiências menos boas. Só assim, podemos não reagir ao mesmo nível. Ao estabelecermos uma comunicação mais profunda e forte, ao partilhar aquilo que em nós é mais profundo.
O silêncio é um componente essencial da própria comunicação.
Poderiamos pensar que no silêncio a comunicação não acontece, mas na verdade, é quando se dá a comunicação mais profunda, um ouve os sentimentos do outro. É comunicação ao mais alto nível, que não pode ser reduzida a palavras. É comunicar pelo coração. É fundamental saber estar em silêncio com outra pessoa. O que acontece é que na maioria das vezes, estamos tão habituados ao barulho e informação vindos de todos os lados, que quando há silêncio, há desconforto. Só que esta é a única forma de comunicação que existe que é verdadeira e clara. Enquanto que as palavras podem ser usadas para disfarçar e camuflar emoções e sentimentos, na comunicação pelo coração não temos como esconder o que sentimos. É claro como água.
E mais importante que comunicar com os outros é comunicar connosco mesmos. Perceber como é a nossa comunicação interna, o nosso diálogo interno, as vozes interiores que ouvimos. Se são positivas ou negativas. Se nos dão força ou se nos enfraquecem. Pois a comunicação com os outros será o reflexo desta. Perceber que palavras usamos frequentemente e de forma inconsciente no nosso vocabulário. Se estas criam muros ou pontes, se desencadeiam inseguranças e medos, se nos dão força e nos enchem de amor ou se nos limitam, aprisionam. Porque é a partir desta comunicação interna que nos vamos ligar ou não aos outros. Se de forma mais agradável ou não. Se de forma mais espontânea ou não.
Quando aceitarmos quebrar os nossos muros de protecção e decidirmos confiar que os outros são semelhantes a nós, com os mesmos problemas, inseguranças e medos, abrimos uma porta para criarmos uma nova ligação com os outros, construimos pontes. Perceberemos que não estamos sozinhos e isolados no nosso mundo. É quando os nossos relacionamentos se tornam mais fortes e profundos pois a partilha é maior. Sentimo-nos mais preenchidos de amor porque nos entregamos mais aos outros e os apreciamos mais. A vida renova-se em nós. Sentimo-nos a pertencer a uma enorme família.




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